Duas faces da morte: o corpo e a alma do Cemitério Nossa Senhora da Soledade, em Belém/PA

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Data

2014

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Iphan

Resumo

A inauguração do Cemitério Nossa Senhora da Soledade, em Belém do Pará, em 1850, marca o momento histórico da transferência de enterros anteriormente realizados em igrejas ou suas imediações para um espaço público. O número de pessoas enterradas ultrapassa os 30.000, impulsionado pelas vítimas de duas epidemias: a febre amarela (1850) e cólera (1885). O local foi inspirado no estilo monumental de cemitérios europeus, seguindo as linhas do período artístico do romantismo, com a adoção de materiais, obras de escultura e cantaria de Portugal e Itália. Apresenta mausoléus e túmulos com rico simbolismo funerário, revelando ideais da época, fatores socioeconômicos, ocupações, valores familiares e conjugais. Sua riqueza refletiu o poder econômico trazido pela cultura da borracha. Os enterramentos cessaram em 1880, mas as pessoas continuaram a visitar esse lugar. Foi desenvolvida uma nova apropriação do espaço por manifestações de devoções às santas almas do purgatório ao lado do cruzeiro e devoções populares em sepulturas específicas. Sem enterros, iniciou-se um processo de degradação rápida, tornando-se objeto de especulações urbanas que incluíam demolição para alargamento de estradas ou para a construção de um complexo habitacional. A mobilização de intelectuais resultou no seu tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN - em 1964, evitando a sua destruição. Esta dissertação põe em questão os novos usos do cemitério e o seu significado para a comunidade, tendo em conta a sua natureza material e imaterial, seu corpo e alma. Pretende identificar o patrimônio cultural que se desenvolveu ali e procura observar a dinâmica social onde o cemitério está inserido, com suas práticas culturais, significados e valores que marcam as experiências constitutivas da cultura de um povo. Foi feita uma pesquisa oral com os frequentadores e devotos do lugar e as respostas permitiram uma compreensão mais completa das manifestações culturais e o perfil das pessoas que as praticam. A partir daí, foram analisadas as relações entre pessoas e espaço, a questão dos santos populares não reconhecidos pela Igreja Católica, o sincretismo religioso e as principais ofertas devocionais feitos em túmulos. Enfim, este trabalho não se destina a resolver ou esgotar a pesquisa sobre o reconhecimento do sentido e valor que o Soledade tem para a cidade e para as pessoas que fazem uso dele. É uma tentativa de observar a realidade, com vista a uma melhor compreensão das relações que ocorrem lá. É como a construção de uma pequena ponte, onde diferentes usos e interesses podem se encontrar, relacionar e respeitar mutuamente, de modo que o maior beneficiado com este processo pode ser o Cemitério de Soledade.

Descrição

425 f. SUMÁRIO INTRODUÇÃO............................................................................................................... 18 CAPÍTULO I................................................................................................................... 24 1. O CORPO DO CEMITÉRIO DA SOLEDADE...................................................... 24 1.1. Contextualização....................................................................................................... 24 1.2. Primeiro Cemitério Público de Belém: o Soledade.................................................. 27 1.3. O Processo de Tombamento...................................................................................... 68 1.4. A Situação até o ano de 2014.................................................................................... 77 CAPÍTULO II................................................................................................................... 80 2. A ALMA DO CEMITÉRIO DA SOLEDADE....................................................... 80 2.1. Orações e devoções................................................................................................... 80 2.2. A pesquisa com frequentadores do cemitério............................................................ 86 2.3. Os principais túmulos de devoção............................................................................. 113 2.4. Devoções em outros cemitérios.................................................................................. 125 2.4.1. Cemitério da Consolação, em São Paulo/SP................................................ 125 2.4.2. Cemitério do Campo Santo, em Salvador/BA............................................. 131 2.4.3. Cemitério Santo Amaro, Recife/PE............................................................. 135 2.4.4. Cemitério São João Batista, Fortaleza/CE.................................................... 138 2.4.5. Cemitério dos Prazeres, Lisboa/PT............................................................... 142 CAPÍTULO III................................................................................................................ 146 3. AS DUAS FACES DA MORTE – O GRANDE ENCONTRO............................... 146 3.1. Problematização dos termos usados............................................................................ 146 3.2. As relações entre pessoas e o espaço do Soledade.................................................... 148 3.3. Fundamentação católica.............................................................................................. 151 3.3.1. Diretório Sobre a Piedade Popular e a Liturgia: Princípios e Orientações... 153 3.3.2. O Purgatório................................................................................................. 157 3.4. Santos oficiais e não oficiais....................................................................................... 162 3.4.1. Os santos canonizados.................................................................................. 162 3.4.2. Os “santos” que o povo elege....................................................................... 166 3.5. Ex-votos e oferendas................................................................................................... 170 3.5.1. As velas......................................................................................................... 172 3.5.2: As orações..................................................................................................... 173 3.5.3. A água........................................................................................................... 176 3.5.4. As flores........................................................................................................ 179 3.5.5. As fitas......................................................................................................... 182 3.5.6. Alimentos...................................................................................................... 184 3.5.8: Roupas.......................................................................................................... 187 4. CONCLUSÃO.............................................................................................................. 191 REFERÊNCIAS............................................................................................................... 204 ANEXOS........................................................................................................................... 220

Palavras-chave

Patrimônio cultural, Cemitério da Soledade - Belém/PA, Arquitetura cemiterial – Século XIX, Morte – aspectos sociais, Cultos religiosos

Citação

RODRIGUES, Paula Andréa Caluff. Duas faces da morte: o corpo e a alma do Cemitério Nossa Senhora da Soledade, em Belém/PA, 2014. 425 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Preservação do Patrimônio Cultural) -- Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Rio de Janeiro, 2014.